O rádio de galena que iremos construir, cujo desenho, reveja abaixo, em blocos, é bem simples e o descreveremos agora, com a relação de material e como confeccionar a bobina. Felizmente, no caso do diodo, não precisaremos ter de fazê-lo, com improvisação de uma lâmina de barbear ou um cristal de galena, ou ainda, como nos primórdios do rádio, um tubo de limalha de ferro. Adquiriremos um diodo de germânio, já pronto, ainda disponível no comércio, barato e simples, como deve ser o nosso circuito.

Rádio Galena em Blocos - Wikipedia

A Bobina

Passemos agora a descrever a bobina, cuja imagem, abaixo, da própria, confeccionada a partir do enrolamento de um transformador (trafo), desmontado simplesmente para a remoção do fio esmaltado, afinal, a que se destina a sucata, ainda com os fios a estanhar, cobertos de esmalte. Sinal de que, em eletrônica, conhecemos a Lei de Lavoisier (ou dos restaurantes!): Nada se perde… Tudo se transforma.

bobina am nucleo ar pvc

Esta bobina admite tolerâncias e é bom que que construas com este espírito, pois uma bobina com mais espiras, pela lei da eletroindução, vai diminuir o espectro de frequência; e uma com menos espiras, o inverso, claro. Tu podes até fazer versões desta bobina e anexá-la ao circuito com garras jacaré e assim teremos um rádio que pode oscilar até as faixas altas de Ondas Curtas. Esta bobina da imagem foi construída com tubo para fio dental,  de plástico flexível, para lhe prover boa sustentação, aliado ao fato de, por se tratar de material maleável, ser bem fácil fazer as furações, e foi enrolada com fio 0,28AWG, retirado de um velho transformador, como se falou antes; após o ato de enrolar, tomando-se o cuidado de se fazerem duas ou mais derivações, para experimentos com mudança de faixas de frequências, fizéramos o estanhamento dos bornes e estava pronta para conectar ao circuito. Optou-se por uma bobina de núcleo a ar, mas o montador pode fazer uma ou mais bobina com núcleo de ferrite, o que vai causar aumento de indutância, e, claro, diminuir a faixa de frequência do rádio. Esta bobina é feita com dois enrolamentos, cada qual com 65 espiras em cada enrolamento, ou seja, são duas bobinas no mesmo suporte. Observe a orientação das mesmas, no momento de fazer a montagem, ou seja, se se utiliza o sentido do enrolamento para a bobina A, o mesmo sentido para a bobina B deve ser perseguido. Solda-se o terra de uma com a mesma orientação do terra da outra. Parece um mero detalhe, mas não. Se inverter o lado da soldagem, nas bobinas, pode não funcionar, por causa do efeito contra-eletromotriz. Sem descer a teorias, nos circuitos existe uma pequena marca, junto à bobina. Ela mostra a orientação dos enrolamentos e permite ao montador saber qual a orientação tomar. Os esquemas, seja no Eagle, no gEDA ou em outra suíte para eletrônica, possuem footprints com as marcas de orientação das bobinas, como na imagem a seguir:

orienta bobina, enrolamento, eletromotrizEstanhamento. O que é estanhar? Estanhar o fio de um condutor, no caso, com esmalte, pode ser a diferença entre o seu circuito funcionar ou não. Raspe bem os fios esmaltados no local a ser estanhado. Estanhar significa simplesmente envolver o núcleo condutor do fio em solda (estanho + chumbo + breu, para ajudar na montagem; daí o nome estanhar). Ao pedir solda ao vendedor, se você for noviço em eletrônica, peça-lhe solda 40×60 (40% de chumbo, 60% de estanho. O breu já vem nela. É um líquido amarelo com cheiro característico forte, cuja função é ajudar na adesão da solda).

O Diodo de Germânio

Quanto ao diodo, o porquê do germânio? Simples. Mesmo em um rádio amplificado (este aqui, lembre-se, não é um deles. É um rádio cujo sinal da emissora vai direto aos fones, sem amplificação), o diodo a ser utilizado, nesta função, será de germânio. O diodo é um componente eletrônico cuja função precípua é retificar sinais. Há inúmeros tipos de diodo. Retificadores, eletroluminescentes (LED´s), túnel (para geração de sinal), Schottky (retificação com rápida recuperação), etc. Uma característica comum, ora desejável, ora não, a todos, e que aqui se busca amenizar: os diodos apresentam, quando diretamente conectados, ao final do circuito, uma queda de tensão ou barreira de junção. Esta queda ou arrefecimento depende do material do diodo e  os de germânio apresentam, tipicamente, uma queda que vai de 0,200 a 0,300mV, enquanto os seus correspondentes onipresentes e baratos, de silício, provocam uma queda de 0,700mV ou 0,7V. Bastante acentuada, quase 1Vpap (um Volt pico a pico).

O Diodo como Detetor de Sinal

Se há vários tipos de diodo e escolhemos o de germânio, para o nosso radinho, então, qual a função deste diodo, neste circuito? Bom, ele vai ser o detector do rádio. E o que é o detector? É o estágio que separa as ondas eletromagnéticas daquelas puramente de áudio. Lembre-se: o rádio utiliza ondas eletromagnéticas e transmite áudio modulado naquelas. Este, de frequência muito mais baixa, precisa ser separado para podermos ouvi-lo. Em rádios com mais estágios, o detector ou conversor é um estágio à parte e fica ao final dos amplificadores de frequência. Neste nosso, pela simplicidade, ele se torna um só estágio e já fica conectado ao fone. Muito da teoria que envolve a construção de um simples rádio de galena será deixado agora, à guisa de simplicidade. Além daquele Elo de ligação, no começo do artigo, sobre o radinho, o Talk Electronics tem um excelente artigo sobre o Rádio A Cristal, outro nome pelo qual se conhece o galena. É muito bem escrito, com farta teoria, afinal, Collin Mitchell é um veterano na eletrônica. Lá, na parte sobre o funcionamento do galena, o leitor aprenderá bastante.

O Capacitor Variável

Fora da ordem, mas falaremos agora brevemente sobre o capacitor variável. Este também admite tolerância. Tanto podemos utilizar um daqueles de plástico, modernos, como podemos nos valer daqueles antigos, de estrutura metálica. Estes são mais caros do que aqueles primeiros, mas, a não ser pelo aspecto saudosista, não haverá nenhum problema se se utilizam os de plástico. As capacitâncias são similares. Se tiveres problema com a cobertura da faixa, digamos que o capacitor variável, mesmo atuando, não cobre toda a faixa de AM, por exemplo, podes mexer no número de espiras, aumentando-as, para uma faixa mais baixa, ou reduzindo-a, para o inverso. Ou ainda podemos ligar, no caso de variável com duas seções, estas em paralelo, aumentando-lhe a capacitância. A faixa de AM-OM (AM, ondas médias) vai de 540 a 1640Hz. Após esta faixa, ainda com modulação em AM, temos Ondas Tropicais e Ondas Curtas.

Variavel metálico
Capacitor variável de uma seção, antigo.
variável plástico
Capacitor plástico, mais moderno. Tem quatro seções; duas para AM e duas para a faixa de FM.